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Leonardo Tonus entre a Sorbonne e a pesquisa sobre imigração

 

Professor na universidade francesa, o brasileiro criou a Primavera Literária e conta como a sua história pessoal o influencia.

 

por Paulo Jorge Pereira

 

Por influência da homenagem que a França fez ao Brasil em 2005, Leonardo Tonus, professor brasileiro na Sorbonne, pensou em criar um movimento e daqui nasceu a Primavera Literária Brasileira. “Recebi autores brasileiros e portugueses desde essa altura em sala de aula com o intuito de divulgar a literatura mais recente e como atividade pedagógica para que os estudantes se interessassem por ela. Com o aumento dessas visitas e uma dinâmica própria, decidi em 2014 realizar uma semana Brasil na universidade, convidando alguns autores. Houve boa receção dos estudantes e, então, criei o chamado Festival ou Primavera Literária com um formato pedagógico em parceria com os estudantes e em prol deles, pois participam na organização, na escolha e no acompanhamento dos autores, deixando uma atitude passiva”.

 

O movimento cresceu e já passou por cidades como Berlim, Leiden, Bolonha, Roma, Lisboa, Barcelona e, agora, Luxemburgo. A receção “tem sido excelente”, embora variem as “dificuldades no ensino do português ou da pouca visibilidade da cultura lusófona”. O docente agradece “o apoio do Instituto Camões, da embaixada de Portugal e da Fundação Gulbenkian que permitiram a vinda de autores portugueses e esses diálogos, às vezes difíceis no Brasil ou mesmo em Portugal”.

 

O fascínio de uma língua

 

O docente reconhece que a área de maior internacionalização lusófona no mercado editorial europeu “é a do romance, incluindo o policial. Poesia quase não há, teatro muito pouco e, infelizmente, uma coisa que falta são os ensaios porque, apesar dos excelentes pensadores, não encontram penetração no mercado”.

 

No próximo ano, a Sorbonne celebra o centenário do ensino de português. Sobre o poder e o fascínio da língua portuguesa, o professor comenta: “Cada língua tem o seu acento, porque não gosto da palavra sotaque. Uso a palavra francesa porque é um ritmo e uma respiração diferente, isso é o que me fascina e talvez fascine quem se interessa pela nossa cultura. Uma grande diversidade que abarca o globo inteiro – passa pelas Américas, pela Europa, pela Ásia e Ásia Menor, pelo Médio Oriente. E isso é fascinante”. 

 

Itália e Portugal nas veias

 

Condecorado pelo Governo francês, quando chegou, em 1988, teve de superar naturais dificuldades. «Foi um acaso no meu percurso pessoal e profissional», conta. «Tenho um Mestrado em composição, regência coral e orquestral e um dos meus objetivos, quando decidi sair do Brasil e instalar-me na Europa, era aperfeiçoar-me no campo musical, voltado para os países germânicos porque tive formação em Germânicas no Brasil. Mas há acasos na vida que levam a que nos instalemos num país completamente diferente e isso sucedeu comigo”, recorda.

“A chegada é uma história comum aos expatriados – a primeira grande dificuldade é linguística. Durante seis a oito meses não tive contacto com a comunidade lusófona, embora esta fosse numerosa, porque vivi na Bretanha, até chegar à universidade. Vivia-se noutra época, sem Internet, nem telemóveis, as comunicações levavam muito tempo e por telefone era quase impossível”, refere.

 

E toda a sua vivência familiar tem marcas de expatriado. “Pelo lado do meu pai, sou neto de italianos que chegaram ao Brasil nos anos 20 e tenho dupla nacionalidade; por parte da minha mãe, tenho ascendência portuguesa, vinda ao Brasil no começo do século XX. Uma parte de África, Angola e São Tomé e Príncipe, e uma parte da região de Trás-os-Montes. E essa experiência é importante porque se tornou também fruto da minha pesquisa”.

 

 

Preocupado com o Brasil

Com efeito, Leonardo interessou-se sempre pelo âmbito da imigração: “Desde o meu Mestrado, sobre a representação do imigrante na literatura brasileira, e agora defendi a minha livre docência, mais uma vez, sobre questões migratórias, mais voltado para os anos 80 e para o processo de transição democrático”.

 

Nesta pesquisa foi formando ideias sobre a imigração lusófona na Europa. “Sofreu um grande trauma que é pouco verbalizado”. E explica-se: “Na literatura fala-se pouco desta questão. Alguns filmes acabam por trabalhar o assunto, embora de um modo mais estereotipado como na Gaiola Dourada, um filme de grande sucesso, mas sublinhando alguns estereótipos sem abordar a memória traumática que perpassa não só a primeira geração como até à terceira. Isso encontro muitas vezes nos estudantes que têm dificuldade de se situar entre França e Portugal. Na Alemanha também acontece assim. Não é que isso tenha dado origem a guetos, mas vejo um certo silenciamento, talvez por pudor também, dessa comunidade que fala pouco do processo traumático”.

 

Há cerca de 30 anos fora do Brasil, Leonardo mostra-se preocupado. “Saí num momento de crise e de falência da América Latina, nos anos 80, e agora vejo o Brasil com muita tristeza. Acreditámos numa euforia económica e em novos caminhos políticos e sociais, mas tenho visto com uma certa desesperança os últimos acontecimentos como o assassínio de Marielle Franco que causou um grande impacto e um grande choque, mas que diz muito de um processo de polarização ideológica que se tem observado no país”.

 

Foto: Lex Kleren

 

Fonte : Jornal Contacto : https://www.wort.lu/pt/cultura/leonardo-tonus-entre-a-sorbonne-e-a-pesquisa-sobre-imigrac-o-5abc90abc1097cee25b86294

 

 

 

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